Do outro lado do espelho: Anabela Lino, country holding officer da ABB em Portugal

Por Anabela Lino, Administradora Executiva da ABB Portugal

Uma conversa com a administradora executiva da ABB em Portugal que incluiu curiosidade, coragem, cuidado e colaboração, afinal de contas os quatro valores fundamentais da empresa suíça/sueca.

center

Num tempo marcado pela velocidade, pela mudança constante, pela imprevisibilidade e por carreiras cada vez mais dispersas e fragmentadas, permanecer (praticamente) três décadas na mes­ma empresa é, nos dias que correm, uma raridade. Anabela Lino é um desses casos excepcionais. Administradora executiva da ABB, líder mundial em soluções de electrificação e automação, em Portugal e responsável pela integridade fiduciária da multinacional de matriz suíça e sueca no nosso país, construiu um percurso onde a con­sistência, o agarrar de oportunidades, a capacidade de arriscar e de se adaptar e a liderança andaram (e continuarão a caminhar) lado a lado.

Recebidos na sede da ABB em Por­tugal, entramos num espaço moderno e amplo, composto por um open space, rodeado por um conjunto de salas que foram buscar os seus nomes a diferentes cidades portuguesas. Antes do início da conversa, uma curiosidade: a equipa da ABB mudou-se para estas instalações no princípio de Março de 2020. Duas semanas depois, «íamos todos para casa».

A entrevista com a nossa convidada teve lugar na Sala Évora. Infelizmente, sem vista para o Templo Romano de Évora (frequentemente chamado de Templo de Diana) e que, segundo estudos arqueológicos, estaria originalmente rodeado por um pórtico e um “espelho de água”, realçando a sua imponência. Assim, partimos para “outro” espelho. “Anabela, o que está ‘do outro lado do [seu] espelho’?”

O INÍCIO DA HISTÓRIA

Nasceu em Sintra e, como costuma dizer, “ainda vivi uns meses em ditadura”. Anabela, filha única, cresceu num am­biente onde a essência se sobrepunha à aparência, moldada por uma família que privilegiava a honestidade e a inde­pendência. Como ela própria recorda: “as minhas primeiras recordações são daquele período ainda conturbado do pós-25 de Abril”, um tempo em que as histórias da guerra do Ultramar conta­das pelo pai (que combateu em África) se cruzavam com a chegada dos colegas “retornados” à escola primária.

No final do primeiro ciclo, ingressa no Colégio São José do Ramalhão.”Na altura, era um colégio só de raparigas, exclusivamente feminino. Acho que isso também acabou por marcar um pouco a minha forma de ver as coisas.” O seu percurso seria definido por uma ape­tência natural pela lógica e pelo rigor da matemática. Recorda que “já havia alguma ligação à matemática dentro da família, mas eu sempre tive uma forte inclinação pessoal. Para mim, tudo tem de fazer sentido. Ainda hoje, continuo a ser muito fraca a decorar mas, se eu encontrar uma lógica por trás das coisas, isso fica completamente fixado na minha cabeça e passa a fazer todo o sentido.” Durante este período, também desenvolveu o gosto pela leitura. “Sempre foi um hobby muito presente. Nunca fui particularmente ligada ao desporto”.

“OS MAIORES CRESCIMENTOS ACONTECEM QUANDO SAÍMOS DA ZONA DE CONFORTO.”

O passo seguinte passou pela faculdade e, novamente, a importância da família: “O meu pai tinha um orgulho enorme. Nas nossas conversas, ele nunca colocou a hipótese de eu não tirar um curso. Ape­sar de ter crescido numa época em que, tradicionalmente, as mulheres tinham um papel mais secundário, o meu pai nunca partilhou essa visão e, talvez por isso, a questão da diversidade me seja tão cara.” E remata, “incentivou-me sempre a não depender de ninguém, a fazer o meu próprio percurso e a fazer as minhas próprias escolhas. E, de facto, eu fui para Finanças porque quis ir para Finanças.”

No final do curso, e por sugestão de uma colega de faculdade, decide candidatar­-se à ABB e, após envio do currículo e posterior entrevista, fica.

ABB: O INÍCIO

Quando entrou para a ABB, em 1996, Anabela Lino encontrou uma empresa com uma dimensão industrial impres­sionante em Portugal. “Na altura, a ABB tinha uma dimensão gigante no nosso país”, recorda, numa época em que o grupo apostava fortemente na indústria metalomecânica, contando com várias fábricas no país. A multinacional empre­gava então cerca de cinco mil colabora­dores e integrava diferentes empresas do grupo, entre elas a ABB Hidro, unidade onde começou o seu percurso e que era responsável pela área das barragens e sistemas hidroeléctricos.

“Foi uma escola excelente”, diz, des­tacando o impacto que teve trabalhar numa organização marcada pelo rigor e pela estrutura. “Tínhamos manuais super detalhados para tudo, tínhamos um sistema de reporting super avança­do para a época”, lembra. Para quem acabava de terminar a licenciatura, a experiência permitiu-lhe acelerar a transição da teoria para a realidade empresarial: “rapidamente deu para começar a pôr em prática e a ver a aplicação prática de tudo aquilo que eu tinha teoricamente aprendido.”

Mas o percurso e a ascensão de Anabela não foram lineares nem confortáveis. Aos 28 anos, recebe o convite para assumir a Direcção Financeira de várias empresas do grupo ABB em Portugal. A proposta apanhou-a de surpresa. «”Não estava à espera de abarcar um desafio destes tão cedo”, admite. Ainda assim, decidiu avançar porque percebeu que “o com­boio, por vezes, não passa duas vezes”. Hoje, olha para esse momento como uma das grandes lições da sua carreira: “os grandes desafios e as grandes conquistas acontecem exactamente quando nós nos colocamos em zonas de desconforto”.

O REFLEXO DO OUTRO LADO DO ESPELHO: O EQUÍLIBRIODE CUBA À ARGENTINA, COM DESTINO FINAL NA ALEMANHA

No ano anterior, e fora do escritório, descobre as danças latinas, que prati­cou durante bastante tempo, e que lhe ensinaram que ali “quem comanda é o homem… é o único sítio onde eles mandam verdadeiramente”, mas, fora de brincadeira, sublinha a disciplina e o trabalho de equipa necessários: “É necessária muita cumplicidade, entendimento e prática constante para evoluir. Quando deixei de dançar, estava no nível pré-avançado, mas acabei por parar porque era preciso muito mais tempo de dedicação. Nessa altura, também tinha acabado de nascer o meu filho e já não conseguia conciliar tudo.”

No entanto, refere que esta actividade “acabou por se reflectir noutras áreas da vida, sendo interessante perceber como essa dinâmica de trabalho em equipa e liderança se transportou também para o contexto profissional.”

Mais recentemente, descobre o Pila­tes, método de exercício físico e mental criado na Alemanha. Para Anabela, é uma ferramenta de recentramento mental num quotidiano exigente. “É importante limpar a cabeça e focar no que é realmente prioritário, em vez de apenas reagir ao urgente”, acrescen­tando que “o que realmente se espera é foco nas prioridades e visão de médio e longo prazo.”

MATERNIDADE

Assumida aos 36 anos, trouxe-lhe uma nova perspectiva sobre liderança. “Há um paralelo enorme entre ser mãe e liderar equipas”, afirma. Para Anabela, tanto na educação de um filho como na gestão de pessoas, não existem fórmulas universais: “nós não gerimos duas pes­soas da mesma equipa da mesma ma­neira porque as pessoas não são iguais”. Defende uma liderança personalizada, próxima e assente no exemplo, porque “os miúdos, por mais que se lhes diga ‘não faças isso’, eles não vão fazer se não nos virem fazer”, uma lógica que considera igualmente válida transportar para o contexto empresarial.

ABB: PRESENTE E FUTURO

Ao longo de três décadas na ABB, interrompidas apenas por uma breve passagem pela Toys “R” Us, nunca sentiu necessidade de procurar desafios fora da empresa. “De monotonia aqui nós não sofremos”, diz, lembrando que teve oportunidade de trabalhar em áreas financeiras, estratégicas e operacionais distintas. Mais do que cargos, valoriza a cultura de partilha que encontrou desde o primeiro dia e que continua a promover nas suas equipas: “a partilha de conhecimento não compromete o nosso lugar, pelo contrário, permite­-nos crescer”.

“CORAGEM, CUIDADO, CURIOSIDADE E COLABORAÇÃO: É ASSIM QUE SE CONSTRÓI O FUTURO.”

Hoje, enquanto Country Holding Officer da ABB em Portugal, vê a sustentabilidade como uma questão estratégica e não ape­nas reputacional. “A sustentabilidade já não é um slogan, está embebida na nossa estratégia”, diz. Embora reconheça que “as empresas existem para dar lucro”, acredita que a eficiência energética será decisiva para a competitividade futura. “A melhor energia é aquela que não consumimos”, resume, defendendo que a transição energética deve ser encarada simultaneamente como responsabilidade ambiental e oportunidade de negócio.

E, quase a terminar. Anabela confes­sa que ainda não perdeu a esperança de ter uma prova de Fórmula-E em Portugal, campeonato onde a ABB é o main sponsor, e onde participa o piloto nacional António Félix Costa, campeão na temporada de 2019/2020. Refere também que “nós, em Portugal, temos uma formação incrível, temos muitos bons talentos a saírem das universidades. Eu acho que já se começa a perceber isso e a ABB, enquanto líder em tecnologias de electrificação e automação, percebe isso. Nós temos muita gente a trabalhar a partir de Portugal, como disse, e nós temos muito para oferecer.”

Para além disso, num sector ainda maioritariamente masculino, continua também empenhada em abrir caminho às novas gerações, especialmente às mulheres. Recusa quotas, mas insiste na igualdade de oportunidades desde cedo. Porque, para Anabela Lino, Country Holding Officer da ABB em Portugal, o futuro da indústria, e das empresas, constrói-se com quatro ‘cês’: Coragem, Cuidado, Curiosidade e Colaboração.

Links

Contacte-nos

Transferências

Partilhe este artigo

Facebook LinkedIn X WhatsApp